04 agosto, 2008

CHINA, AMÉRICA E EUROPA





Quando critiquei a China, pela falta de Direitos Humanos, enquanto o estava a fazer não me saía da cabeça a América.
Num outro blog que tive, fiz um post enaltecendo os líderes chineses, quando foi do terramoto que aconteceu na China.
Foi comovente ver os dirigentes chineses, junto do seu povo, enquanto as réplicas se sucediam, tentando minorar o sofrimento do seu povo.
Não que tivessem feito mais do que a sua obrigação, mas comparei-os na altura, à reacção, que teve Bush aquando das cheias de New Orleans, onde nada funcionou, num país que dá ajuda a todos e que não soube, junto do seu povo, fazer nada de nada.
Bush só foi a New Orleans um mês depois.
O que não se pode esquecer é que o maior país paladino dos Direitos Humanos, a América, tem GUANTANAMO.
Ouvi na sexta-feira, numa entrevista no Jornal 2, um Senhor, que não me lembro o nome (eu com nomes sou uma verdadeira nódoa), mas que sabia do que falava, dizendo que as torturas de hoje em dia, são feitas com drogas, fármacos, se quiserem, e que se consegue quebrar psicologicamente uma pessoa em apenas 48 horas.
Fiquei horrorizada! Pancada? já se não se usa, usam-se drogas e consegue-se saber tudo, mas tudo o que alguém saiba.
A Europa? A Europa, é talvez a mais hipócrita, negociando com todos os que lhe fazem jeito, não querendo saber de nada, nem de Direitos Humanos.
A Europa, só quer saber de dinheiro.
Por isso enquanto condeno a China, estou a condenar também, a América e a Europa.

9 comentários:

João Videira Santos disse...

As chinesices nunca foram melhores, nem piores que as...americanices!
Conhecemo-los bem...

Funes, o memorioso disse...

Meus caros,
Vamos falar honestamente. O anti-americanismo tende a toldar o raciocínio e às vezes (eu próprio pecador me confesso) não resistimos ao dislate.
Quando João Videira Santos escreve “As chinesices nunca foram melhores, nem piores que as...americanices” ele sabe que não acredita no que está a dizer. Ele sabe que se fosse obrigado a escolher entre viver nos EUA e na China, escolheria os EUA, porque gosta de uma coisa que há na América e não há na China: da LIBERDADE.
Esta evidência vale por si e dispensa demonstrações adicionais.
Há dias, num avião qualquer no regresso de férias, tive oportunidade de ler uma reportagem sobre um oficial da marinha dos Estados Unidos (culpavelmente, esqueci o seu nome) que foi nomeado defensor oficioso de um dos prisioneiros de Guantánamo, junto do Tribunal Militar que o havia de julgar. Uma mera formalidade, destinada a dar uma aparência de legalidade e justiça à fantochada que se preparava.
Acontece que o oficial em causa, de 24 anos, tinha já incutidos os princípios e valores da América e usava uma farda que era um símbolo desses valores e que ele se sentia obrigado a respeitar, para não se tornar indigno da herança dos pais da pátria. Em vez do equivalente anglo-saxónico do nosso oficioso “peço justiça”, decidiu levar a cabo a tarefa que como militar lhe foi atribuída: defender o prisioneiro de Guantánamo. Estudou a acusação, estudou a prova e os processos da sua obtenção, exigiu informações, denunciou, rebateu, acusou os acusadores, criou um trinta e um a quem o nomeou para que cumprisse o papel de ajudante de uma farsa. Recusou participar nessa farsa. Acima de tudo: criou um padrão de conduta que se tornou imperativo para todos os oficiais incumbidos da missão de defender os prisioneiros de Guantánamo.
Este oficial nasceu na América e a sua consciência era, por isso, a consciência de um americano. Nessa medida, sentiu que o seu dever era servir com independência o seu país e não o poder ocasional, momentaneamente instalado no seu governo. Nunca isto seria possível na China, onde a inexistência de uma cultura de amor à liberdade e à independência do pensamento implica sempre que servir o país se confunda com servir os senhores do poder do momento.
É isto que faz toda a diferença. É isto que faz com as americanices não sejam iguais às chinesices. É isto que faz com nós europeus, negociemos com facínoras, com bandidos, com ditadores hediondos e, apesar disso, possamos dizer ainda que somos diferentes. É que os melhores de nós recusam terminantemente esse sujo comércio. E outros de nós, os que não conseguimos ser os melhores, admiramos esses que o são e sentimos vergonha da nossa covardia e falta de verticalidade. Nada do que fica dito, desmente que o que se passa na América é extraordinariamente preocupante e, de certo modo, justifica o post de Claras e o comentário de Videira Santos.
É que o que se passa na América não se podia, de modo algum, passar na América.
Com certeza que os métodos de tortura na China são muito mais cruéis e generalizados do que os métodos de tortura que a América usa em Guantánamo. Simplesmente, isso não atenua a culpa da América. Agrava-a. Porque a América – ao contrário da China que nunca se andou por aí a gabar de ser a campeã da liberdade e dos direitos humanos, nem pretende que o seu exemplo na matéria se torne regra, invocando, antes, invariavelmente, a natureza da questão como assunto interno – tem a pretensão de ser a pátria da LIBERDADE e dos direitos humanos, porque a América expressamente proclama o seu modelo de liberdade e de respeito pelos direitos humanos como um modelo que kantianamente se deve erigir como imperativo ético universal. Ora, quem fala assim não pode tolerar, por um milésimo de segundo só que seja, Guantánamo. Porque se se reclama do lado do Bem e o faz, muda-se para o lado do Mal. E torna-se pior do que os que, sendo do Mal, nunca alardearam serem do Bem e nunca pretenderam dar lições de moral ao mundo.
Escrevi um dia que se George W. Bush, nascido e criado na América, era como é, nascido e criado no Iraque, como Saddam, seria um facínora terrorista mil vezes pior do que o mesmo Saddam que ele julgou e fez matar, acusando-o de mau, mas, na realidade, apenas por ele ter menos força.
Não tenho a mais pequena dúvida que George W. Bush é um criminoso de guerra pior do que muitos que ele, como tais, fez condenar.
Embora às vezes também me descaia, tento não o confundir com a América.

Claras o contestatário disse...

Olá João Videira santos


Depois do comentário do Funes, não tenho mais nada a acrescentar.

beijinho

Claras o contestatário disse...

Olá Funes Querido


Tudo bem! com a clareza habitual.

Não sou anti-americana, não confundo (quase nunca) Bush com a América, mas Guantanamo existe há tempo de mais e muito , mas muito antes de Bush.

Beijinho grande

Carla disse...

Amiga
li-te e li o Funes...nada mais a acrescentar a não ser agradecer-vos aos dois pela hipótese desta leitura!
Acrecento ainda que apesar de todos os defeitos da sociedade americana e como sei que não é um (ou dois) Bush que a fazem prefiro a liberdade que aí se respira às chinesices que conhecemos
beijos

Claras o contestatário disse...

Pois é Carla

Contra factos não há argumentos!
sorriso


beijinho

Terpsichore Tétis disse...

Oh! Acho este comentário do Funes, uma coisa que merece memória mesmo - publicação!

Perfeito. Bravo.

Terpsichore Tétis disse...

Ah, e também fiquei horrorizada com essa coisa das drogas.
Não sabia nem consigo imaginar.
Não consigo imaginar o que é que pode ser pior do que as coisas inimagináveis que já se fazem há tantos séculos.
Que eu não sei como é que é possível, nem imaginar-se coisas assim, quanto mais...fazê-las.

É impossível suportar isto.

Isto implica uma mudança de vida imediata, urgente...

É um pouco como quando aos 18 ou 19 anos vi aquele filme que se passa na prisão de Istambul.

Claras o contestatário disse...

O Funes é sempre excelente tanto em comentários como nos posts brilhantes que faz.
Tem toda a razão, deveria tê-lo passado a post e pensei nisso....
mas não o fiz
E arrependi-me já várias vezes.

percebo muito bem o que diz sobre as drogas e sobre o inimaginável
Esse filme recusei-me a ir vê-lo, mas sei do que trata

Beijinho